terça-feira, 27 de outubro de 2009


Siririca para Kant
-Talvez alguma livre associação do entendimento
Kant, o nome em:
A vida sexual, e
A crítica da razão pura.
Enquanto eu (...), permaneço impura: no superlativo sintético.

(naquela tarde e chuvisco, rondava o surrealismo)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Chico Alvim


LEOPOLDO

Minha namorada cocainômana
me procura nas madrugadas
para dizer que me ama
Fico olhando as olheiras dela
(tão escuras quanto a noite lá fora)
onde escondo minha paixão
Quando nos amamos
peço que me bata
me maltrate fundo
pois amo demais meu amor
e as manhãs empalidecem rápido

(Poemas, SP: Cosac & Naify, 2004)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009


Isso desgasta a gente.
Todo dia isso, todo dia isso.
A gente se vira do avesso e isso
não tem jeito, não (!).
A gente tem vontade de gritar isso bem alto,
(isso de se escangalhar no asfalto).
Aí vem alguém muitíssimo esperto e diz:
vamos logo acabar com tudo isso.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Confissões


* a coisa que eu mais odeio no mundo é dentista.
* a segunda coisa que eu mais odeio no mundo é o motorzinho do dentista.
* a terceira coisa que eu mais odeio no mundo é a anestesia do dentista.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009


Você, Bettie Page,
e o rebolado miúdo.
Afinal, o sutian, a calcinha
são pedacinhos pequenos de pano.
São isso só, sabia?! (Deus saberá!)
Enquanto você sorri, Bettie Page,
está tudo bem, tudo está resolvido.
Macarthismo para os sem religião
(isso mesmo: para os sem-compaixão,
para-quem-não-tem-paixão).
Pra você, bela, boa e verdadeira,
o BELO, o BEM e a VERDADE.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Temporal


Era o tempo de elaborar:
Articulações de voz, o timbre.
De passo em passo a caminhada,
Pisar em terra firme.
Tempo era esse o de se manter erecta.
Sujeição às intempéries:
Estar sempre alerta.
- Vontade mesmo era outra.
Fosse o tempo de agora o tempo
D'star fora dos tempos.
- Inundada -
(Em tempos de vir-a-ser, seria sereia/ água-viva/ a estrela do mar)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009


Nova, toda ela
Do sorriso ao deboche
Debochada ela toda era
De cinta liga e chicote
***
E (pasmem!) era feliz
Era sim
Tanto era ser meretriz

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Felicidade


......................................................Sei que a dor é a única nobreza
...................................................................................Baudelaire

Éramos tristes. Acordávamos todo o santo dia. Obedecíamos às regras e aos horários e às convenções; lamentávamos. Comíamos pouco e barato. Nenhum presente, nenhum estímulo: A tristeza era o bastante. Tampouco vaidades: a tristeza se encarregava de ditar as últimas tendências: prozac, citalopram, deprax, nortec, fluoxene, verotina, isolamento, psicanálise, terapia lacaniana, junguiana, florais. É claro, nada disso nos fazia felizes (nem era esse o objetivo, "- Deus nos livre!"). Tudo isso era parte essencial do nosso triste ritual. É..., a tristeza nos fazia inocentes. Suspiros e a casa modesta, filhos bem-comportados. Assim seguíamos: tristes e obstinados. Bastante confortáveis nessa triste sina: "- Ah, isso sim é que é vida!". Naquela época, ser triste era comungar. Ameaçava-nos apenas aquela louca e vaga idéia. Mas não sucumbiríamos, ah, não... "- Jamais!". A tristeza era nosso dogma, e com que fervor a defendíamos, afinal, “- Quem sofre tem sempre razão!”. Não percebemos, entretanto. Fervor em excesso, algo não ia bem. É bem verdade: o risco sempre existira, mas talvez a falta de fé, a excessiva autoconfiança... Enfim. Nenhum de nós saberia precisar ao certo. Durante muito tempo fomos insistentes, passávamos dias a cultivar as feridas abertas. Fato foi que aconteceu: triste sorriso, a princípio, de canto de boca. O inevitável, e teríamos de lidar com isso, dar a volta por baixo. Muita coisa se passou até que nos déssemos conta: perderíamos o controle, a coisa parecia contagiosa. E assim foi. Feliz fim aquele, dos nossos saudosos e tristes dias.

domingo, 27 de setembro de 2009

Para os meus


Era uma vez os amigos
vários deles entre si:
tinham (os amigos) essa única convicção.
E tratavam de seguir adiante.
Essas coisas* todas
por tempos que iam
e vinham e iam e vinham.
Havia vidas atadas.
Havia as dores dos amigos.
Seguiam na ausência,
e suportavam.
Se divertiam, os amigos
(também isso: estar os amigos alegres)
Por aí vai, sabe-se.


*Coisas, as dos amigos todos.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O honorável sr. Antonio está de volta: www.aparatoestranho.blogspot.com

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Acaso


Distraída e acidental, conheci o trabalho de Aline Daka e achei lindo, lindo. Visitem:http://dakaana.blogspot.com

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Confissões de um comedor de ópio


"Certamente é um absurdo dizer, usando a linguagem popular, que o homem se disfarça com o álcool, pois, ao contrário, a maioria se disfarça com a sobriedade." (p.84)

"Faço este relato sob o risco de ser considerado um louco entusiasta ou visionário, embora considere-me um pouco assim." (p.88)

"A mera antiguidade das coisas asiáticas, de suas instituições, histórias, mitologias, etc. é tão impressionante para mim que a idade avançada da raça e dos nomes supera o sentido de juventude individual. Um jovem chinês parece-me um homem antediluviano renovado." (p.135)

"O interesse do leitor judicioso não deve se prender aos fascinantes efeitos do ópio, mas ao seu fascinante poder. Não o comedor de ópio, mas o próprio ópio é o verdadeiro herói desta narrativa e o centro de todas as preocupações." (p.144)

Thomas De Quincey, L&PM, 2007

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Tempo suficiente
na encruzilhada:
vazia a mente,
ficou sentada.

Até que veio uma pomba e cagou na sua cabeça.
(...o Espírito Santo lhe pregava uma peça...)

terça-feira, 15 de setembro de 2009

John Donne


ELEGIA: INDO PARA O LEITO

Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda, quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
Deixa que a minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha mina preciosa, meu Império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.

Tradução: Augusto de Campos

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Silogismo não válido

Sou uma criança de 25 anos.
Sou uma velha de 25 anos.
Tenho 25 anos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009


1 .Sozinha no banho
Ritual diário de decomposição.

2. Voz dirigida que era para ser expressão e
Quando o cansaço,
Entre o ralo e o shampoo, arranha, escorre
E depois sobe:
Ereta!

3. De quatro cantos cercada
(de vidro, de ralo, de voz e de água)
Seria transparência convicta,
Eco de si
Sim, senhor, seria!

4. Não fosse a espuma entre os dedos
Não fosse o vapor:
Entre o si e o espelho

quinta-feira, 3 de setembro de 2009




Nada em vida
para se afogar
esvaziada

Poética própria



Sim leitor ei-lo aqui diante dum poema e
Para que não haja dúvidas mistérios
Vou logo avisando eu Ana Cristina Joaquim
Sou
Lírica-eu e também autora deste
Sim leitor
Poema de mim mesma auto ego etc.
E digo mais
(Para quem tiver estômago)
Sai assim como vomitar
Vomito muita coisa que como
Vaca (sim leitor sou carnívora) animal ruminante nunca sei
O que deve ficar dentro o que deve ficar fora
Sim leitor vomito muita coisa que como e no entanto
O estômago está vazio como às vezes acontece
(É tudo em primeira pessoa leitor não se/me confunda)
Sim leitor de estômago vazio
Suco biliático às vezes
Como se com bastante azeite
Como gosto agora.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Precoce


Tive de virar adulta antes dos 40.
Mamãe, papai, me lembro.
Antes dos 30,
antes dos 20.
Aos dez diziam já:
"coisas de gente grande",
e eu muito afoita fui
correndo assim a favor do tempo
fui estilhaçando o favor da vida.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Ana Hatherly

A Invenção da Resposta

a invenção da resposta

outrora
em riste
o passo mítico espantoso condensava
da santidade
o insurrecto pudor
o gelo do rubor
a pressa cerrada

agora
em triste
vacuidade
o desafio que expande
cede
degola
o desgarrado nexo do rasgo

Ana Hatherly, Um Calculador de Improbabilidades


"Os livros estão sempre sós. Como nós. Sofrem o terrível impacto do presente. Como nós. Têm o dom de consolar, divertir, ferir, queimar. Como nós. Calam a sua fúria com a sua farsa. Como nós. Têm fachadas lisas ou não. Como nós. Formosas, delirantes, horrorosas. Como nós. Estão ali sendo entretanto. Como nós. No limiar do esquecimento. Como nós. Cheios de submissão ao serviço do impossível. Como nós."

Ana Hatherly, Tisanas