sexta-feira, 20 de novembro de 2009


de mais em mais,
foi querendo coisas tantas.
e nada não basta,
não basta não!

Projeto podólotra ( O percurso e a morte da caminhante anônima)

O gosto do mundo imundo
O gosto do mundo
As papilas gustativas do pé

A masoquista
Filha fiel e arisca
Obedece e seguiu à risca
(E vadia:)
ia, ia, ia.
"Ter os pés sempre no chão"
(O pai é qu'ensina?)
Muito sóbria menina mania
De ter os pés sempre no chão
E ter o (i)mundo a seus pés

Perandante pelos percalços

O gozo do mundo imundo
A dor do imundo
O gozo do mundo
(A masoquista)
O calo no pé cala
A boca do pé gosta
E degusta
Do desgosto

O circuito é circular
Começa no asfalto e termina no mar
E termina no asfalto
E termina e termina no mar
E termina. E termina. E termina.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Homenagem a vossa numinosidade...

A ARTE DE SUICIDAR-SE

O torrense Jaa alegriabita o 17. andar. E, com os pés plantados vertiginosamente acima da Rua da Consolação, queria esvoanecer.
Uma multidão embaixolhava o alegre suicida que se altopunha. Fervoravam-lhe vozvozes pela alma estilhaçável.
E Jaa angustiabita a turris aeternitatis.
Nesse instante antes de atirar-se ou recuar-se, Jaa contempla os homens abismomente lá embaixo. Aí sabe a dolorvisão que brilhara em seu olhar.
E Jaa desesperabita o seu olhar sem absolvição.


GRAND HOMMAGE À L'INVENTEUR DU SONNET

Se ouvimos Deus em nosso dia deserto,
inútil conversarmos entre nós, que ouvimos.
Se não (h)ouve Deus em nosso dia inaudível,
é inútil toda conversa, pois não ouvimos.

Converso com meu cachimbo como com um homem
a quem se pudesse falar em silêncio. E
o cachimbo me responde como a um cachimbo.

Terrível prova foi vários dias ver
meus rastos adiante de meus passos.
O ouvido escuta o dia escuro como
a noite que se clareia com os pássaros.

Convivo só com um pequeno fantasma que
diz: convivo só com um pequeno fantasma que
diz conviver só com um pequeno fantasma.

(A esfera e os dias, Jaa Torrano, 2009, [e] editorial)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009


Acordar semi-nua de sonho ininterrupto.
A água circunda a fronte
dilata o seio
preenche o sexo.
Despertar e perder-se:
Coisa minha, coisa muito própria.
...........***.............
Há bolhas pelo quarto.

terça-feira, 27 de outubro de 2009


Siririca para Kant
-Talvez alguma livre associação do entendimento
Kant, o nome em:
A vida sexual, e
A crítica da razão pura.
Enquanto eu (...), permaneço impura: no superlativo sintético.

(naquela tarde e chuvisco, rondava o surrealismo)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Chico Alvim


LEOPOLDO

Minha namorada cocainômana
me procura nas madrugadas
para dizer que me ama
Fico olhando as olheiras dela
(tão escuras quanto a noite lá fora)
onde escondo minha paixão
Quando nos amamos
peço que me bata
me maltrate fundo
pois amo demais meu amor
e as manhãs empalidecem rápido

(Poemas, SP: Cosac & Naify, 2004)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009


Isso desgasta a gente.
Todo dia isso, todo dia isso.
A gente se vira do avesso e isso
não tem jeito, não (!).
A gente tem vontade de gritar isso bem alto,
(isso de se escangalhar no asfalto).
Aí vem alguém muitíssimo esperto e diz:
vamos logo acabar com tudo isso.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Confissões


* a coisa que eu mais odeio no mundo é dentista.
* a segunda coisa que eu mais odeio no mundo é o motorzinho do dentista.
* a terceira coisa que eu mais odeio no mundo é a anestesia do dentista.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009


Você, Bettie Page,
e o rebolado miúdo.
Afinal, o sutian, a calcinha
são pedacinhos pequenos de pano.
São isso só, sabia?! (Deus saberá!)
Enquanto você sorri, Bettie Page,
está tudo bem, tudo está resolvido.
Macarthismo para os sem religião
(isso mesmo: para os sem-compaixão,
para-quem-não-tem-paixão).
Pra você, bela, boa e verdadeira,
o BELO, o BEM e a VERDADE.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Temporal


Era o tempo de elaborar:
Articulações de voz, o timbre.
De passo em passo a caminhada,
Pisar em terra firme.
Tempo era esse o de se manter erecta.
Sujeição às intempéries:
Estar sempre alerta.
- Vontade mesmo era outra.
Fosse o tempo de agora o tempo
D'star fora dos tempos.
- Inundada -
(Em tempos de vir-a-ser, seria sereia/ água-viva/ a estrela do mar)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009


Nova, toda ela
Do sorriso ao deboche
Debochada ela toda era
De cinta liga e chicote
***
E (pasmem!) era feliz
Era sim
Tanto era ser meretriz

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Felicidade


......................................................Sei que a dor é a única nobreza
...................................................................................Baudelaire

Éramos tristes. Acordávamos todo o santo dia. Obedecíamos às regras e aos horários e às convenções; lamentávamos. Comíamos pouco e barato. Nenhum presente, nenhum estímulo: A tristeza era o bastante. Tampouco vaidades: a tristeza se encarregava de ditar as últimas tendências: prozac, citalopram, deprax, nortec, fluoxene, verotina, isolamento, psicanálise, terapia lacaniana, junguiana, florais. É claro, nada disso nos fazia felizes (nem era esse o objetivo, "- Deus nos livre!"). Tudo isso era parte essencial do nosso triste ritual. É..., a tristeza nos fazia inocentes. Suspiros e a casa modesta, filhos bem-comportados. Assim seguíamos: tristes e obstinados. Bastante confortáveis nessa triste sina: "- Ah, isso sim é que é vida!". Naquela época, ser triste era comungar. Ameaçava-nos apenas aquela louca e vaga idéia. Mas não sucumbiríamos, ah, não... "- Jamais!". A tristeza era nosso dogma, e com que fervor a defendíamos, afinal, “- Quem sofre tem sempre razão!”. Não percebemos, entretanto. Fervor em excesso, algo não ia bem. É bem verdade: o risco sempre existira, mas talvez a falta de fé, a excessiva autoconfiança... Enfim. Nenhum de nós saberia precisar ao certo. Durante muito tempo fomos insistentes, passávamos dias a cultivar as feridas abertas. Fato foi que aconteceu: triste sorriso, a princípio, de canto de boca. O inevitável, e teríamos de lidar com isso, dar a volta por baixo. Muita coisa se passou até que nos déssemos conta: perderíamos o controle, a coisa parecia contagiosa. E assim foi. Feliz fim aquele, dos nossos saudosos e tristes dias.

domingo, 27 de setembro de 2009

Para os meus


Era uma vez os amigos
vários deles entre si:
tinham (os amigos) essa única convicção.
E tratavam de seguir adiante.
Essas coisas* todas
por tempos que iam
e vinham e iam e vinham.
Havia vidas atadas.
Havia as dores dos amigos.
Seguiam na ausência,
e suportavam.
Se divertiam, os amigos
(também isso: estar os amigos alegres)
Por aí vai, sabe-se.


*Coisas, as dos amigos todos.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O honorável sr. Antonio está de volta: www.aparatoestranho.blogspot.com

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Acaso


Distraída e acidental, conheci o trabalho de Aline Daka e achei lindo, lindo. Visitem:http://dakaana.blogspot.com

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Confissões de um comedor de ópio


"Certamente é um absurdo dizer, usando a linguagem popular, que o homem se disfarça com o álcool, pois, ao contrário, a maioria se disfarça com a sobriedade." (p.84)

"Faço este relato sob o risco de ser considerado um louco entusiasta ou visionário, embora considere-me um pouco assim." (p.88)

"A mera antiguidade das coisas asiáticas, de suas instituições, histórias, mitologias, etc. é tão impressionante para mim que a idade avançada da raça e dos nomes supera o sentido de juventude individual. Um jovem chinês parece-me um homem antediluviano renovado." (p.135)

"O interesse do leitor judicioso não deve se prender aos fascinantes efeitos do ópio, mas ao seu fascinante poder. Não o comedor de ópio, mas o próprio ópio é o verdadeiro herói desta narrativa e o centro de todas as preocupações." (p.144)

Thomas De Quincey, L&PM, 2007

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Tempo suficiente
na encruzilhada:
vazia a mente,
ficou sentada.

Até que veio uma pomba e cagou na sua cabeça.
(...o Espírito Santo lhe pregava uma peça...)

terça-feira, 15 de setembro de 2009

John Donne


ELEGIA: INDO PARA O LEITO

Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda, quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
Deixa que a minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha mina preciosa, meu Império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.

Tradução: Augusto de Campos

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Silogismo não válido

Sou uma criança de 25 anos.
Sou uma velha de 25 anos.
Tenho 25 anos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009


1 .Sozinha no banho
Ritual diário de decomposição.

2. Voz dirigida que era para ser expressão e
Quando o cansaço,
Entre o ralo e o shampoo, arranha, escorre
E depois sobe:
Ereta!

3. De quatro cantos cercada
(de vidro, de ralo, de voz e de água)
Seria transparência convicta,
Eco de si
Sim, senhor, seria!

4. Não fosse a espuma entre os dedos
Não fosse o vapor:
Entre o si e o espelho